Lembro-me com saudades da minha infância querida que os anos não trazem mais[1]. Não sei ao certo qual foi a primeira palavra que escrevi ou li, acredito que tenha sido meu próprio nome. Mas me recordo do primeiro livro que ganhei. Era um livro cheio de contos, dentre eles O colibri, o meu conto predileto, ganhei este livro quando tinha de 7 anos de idade, tinha ido pela primeira vez ao Parque da Jaqueira, numa excursão da Escola Reino Infantil, onde eu estudava, para comemorar o Dia das Crianças e lá minha tia Margarida me presenteou com este livro, naquela mesma tarde, brinquei e, ao mesmo tempo, devorei o livro com meus olhos, enquanto o restante das crianças brincavam, eu dava boas gargalhadas com aquela prazerosa leitura. Inclusive, havia uma cantiga popular que eu tentava memorizar e cantar bem rápido que dizia assim: Hoje é domingo/ pé de cachimbo/ cachimbo é de barro/ bate no jarro/ o jarro é fino/ bate no sino/ o sino é de ouro/ bate no touro/ o touro é valente/ bate na gente/ a gente é fraco/ cai no buraco/ o buraco é fundo/ acabou-se o mundo.
Sempre no Dia das Crianças, nossos professores nos presenteavam com bombons, brinquedos e um livro com uma singela dedicatória.
Apesar de a escola ser pequenina continha livros que me deixavam encantada. Gostava de ler os livros Cachinhos de Ouro, O gigante e o egoísta, Chapeuzinho Vermelho e Branca de Neve, mas dentre todos os livros que li naquela escola, houve um que marcou a minha infância e, até hoje, sinto saudade de explaná-lo para meus coleguinhas e ao lembrar vejo as ilustrações que minha imaginação desenharam, o livro intitulava-se A flor de Maio, narra uma bela existente entre uma formiga, uma cigarra e uma borboleta, a história demonstra esperança, solidariedade e a importância de uma verdadeira amizade. Aos dez anos ganhei da minha mãe uma coleção que continha uns dez livros, dentre eles: Vinte mil léguas de viagem submarinha, O Gigante Egoísta, Chapeuzinho Vermelho, Pinóquio, todos com capas de bolinhas.
Sempre gostei de ler, talvez tenha adquirido este hábito com minha tia Sônia, já que ela colecionava livros e sempre gostava de ler para mim, incentivando à prática da leitura.
Na década de 90, existia uma biblioteca municipal que ficava próxima da minha casa, não era um ambiente organizado, com livros em estantes separados por temáticas, eram amontoados de livros usados, mas que continham estórias incríveis que fazia minha imaginação fluir cada vez mais. Todas as tardes, após almoçar e fazer minhas lições de casa eu ia até lá, por vontade própria, li coleções e mais coleções de livros, a bibliotecária já sabia que os livros que chegavam tinham que passar por mim... Gostava de ler lendas, dentre elas as que eu sempre lia, relia e folheava as páginas sem pestanejar eram O Uirapuru e Iara.
Quando completei meus doze anos, pude, finalmente ler uma coleção que sempre tive vontade, mas a bibliotecária não deixava, porque não era indicada para minha idade. Era uma coleção de suspense, chamava-se O enigma. Li com tanto entusiasmo que me imaginava uma detetive quando adulta.
Mas tarde, ao completar meus quinze anos, minha tia começou a emprestar os romances de sua coleção de livros que ela tanto lia, eram romances históricos, que retratavam belíssimas histórias de amor, por vezes, com doses apimentadas de prazer e emoção. Recordo que durante minhas férias eu lia praticamente um romance por dia, minha mãe reclamava, porque queria que apagasse a lâmpada para dormirmos, então eu acendia uma vela e ficava lendo embaixo da minha cama até acabar a leitura ou até o sono chegar, o que era difícil. Imaginava-me vivendo aquelas aventuras de amor, conhecendo a França, Itália, Estados Unidos; navegando no alto mar com piratas; sendo raptada por homens mascarados ou enlaçada por fidalgos.
Neste mesmo momento, a escrita começou a florir também, comecei a rabiscar uns versos aqui, outros acolá, até que fiz um caderninho só com versos meus, continham temas desde amizade, amor à origem de minha cidade, porém um triste fato aconteceu: minha mãe o queimou, pensando que não servia e até hoje sinto saudade daqueles versos, pois não pude reescrevê-los com a mesma inocência de antes.
Na escola o primeiro romance clássico da literatura que li foi Luzia Homem, uma história que tive que ler novamente quando adulta. Cheguei a ler Sinhá Moça, Cinco Minutos, Escrava Isaura, Helena, O crime do Padre Amaro, A moreninha, Iracema, Memórias Póstumas de Brás Cubas, dentre outros. Porém, na vida escolar, nenhum marcou tanto quanto o livro Olhai os lírios do campo, de Érico Veríssimo, livro de uma sabedoria e sensibilidade tamanha. Confesso que na maioria, dessas leituras, sempre deixei as lágrimas banharem minha face, pois eu lia vivendo o sentimento de cada personagem, ora ria, ora chorava, ora sofria. Identifiquei-me com a personalidade de Aurélia Camargo, personagem principal do livro Senhora, de José de Alencar, admirava-a pela sua reviravolta.
Por tanto gostar de ler e escrever, ao cursar a 8º série, já tinha a convicção de que cursaria Letras, este sempre fora meu sonho. Realizei-o com prazer e perspicácia.
Lembro-me do meu primeiro dia de aula na graduação, quase desistira, devido às aulas de Latim e Inglês, sentia-me uma estrangeira, não assimilava o que aqueles professores diziam, até que veio a minha paixão: Português, o encontro, foi perfeito, deu-me forças para seguir adiante, Teoria da Literatura no qual tínhamos que ler um livro intitulado Sargento Getúlio. O início era repetitivo: um boi de barro, um boi de barro. E essa leitura foi me deixando frustrada, até que percebi que aquele livro era diferente, não havia pontuação, nem parágrafos, nem letras maiúsculas, li-o em um dia, e até hoje ele está gravado em minha mente, tratava-se de um monólogo, a partir daquele dia encantava-me mais e mais com as novas descobertas. Vieram os contos maravilhosos ou fantásticos, coisas fora do comum, transportavam-me a outra dimensão. Quantas e quantas vezes deixei de estar com os colegas de graduação para estar na biblioteca procurando livros interessantes, mas foi assim que a minha formação ia tecendo sua trajetória, com gostos de leitura e pitadas de escritas.
Foi na graduação que percebi minha desenvoltura para escrita, aprendi a organizar meu pensamento na hora de escrever, e, muitas vezes, surpreendia-me com o que escrevia, acredito que fiz até alguns professores duvidarem da loucura que estavam lendo... Nesta trajetória deixei minha ansiedade, minha timidez de lado; antes, para apresentar um trabalho em público, parecia um bambu verde, tremia..., mas a leitura me proporcionava segurança para raciocinar e repassar minhas reflexões.
Um fato inusitado marcou o quinto período da graduação. Certo dia, um amigo que morava na mesma cidade que eu, disse-me que tinha ganhado um livro e gostaria que eu o lesse. Dentro de alguns dias ele trouxe o livro O mestre inesquecível, de Augusto Cury, da coleção Análise da Inteligência de Cristo. Li o livro, gostei bastante, pois tratava da personalidade dos doze discípulos de Jesus Cristo. Ao terminar de ler, percebi que a minha maneira de enxergar as pessoas havia mudado, passei a aceitá-las com suas fraquezas e certezas, isso me deixou mais confiante e madura. Poucos dias após a leitura, passei por uma das piores fases da minha vida. O meu namorado sofreu um acidente e ficou em estado de coma durante meses, mas a reflexão daquele livro me deixou fortalecida, e, a partir das reflexões obtidas dele, consegui superar esta difícil fase, embora não tenha tido êxito, pois ele nunca mais voltou a ser como antes e depois de uns anos faleceu. Mas algo ficou registrado em minha mente: a atitude do meu amigo em emprestar aquele livro. Até hoje, creio que foi algo divino. Como poderia alguém querer emprestar um livro sem ser solicitado? É o tipo de questionamento que me faço sempre e a única resposta que tenho é que foi Deus que quis me preparar para o que viria a acontecer.
Após este acontecimento, li o restante da coleção e ainda hoje, costumo ler os livros de Augusto Cury. Às vezes, escuto uns colegas dizerem que os livros dele não são agradáveis, escuto, mas sei que para mim, como para outras pessoas aquele tipo de leitura fez e faz a diferença.
A escrita teve maior participação na minha vida, quando iniciei a graduação, escrevia, reescrevia, até aprender a lidar melhor com os meus pensamentos e transferi-los ao papel. Neste momento, passei a escrever de maneira mais inteligente, com mais clareza, mas certeza, afinal, a maturidade havia chegado e a bagagem de leitura que carregava me renderiam bons frutos. Comecei a perceber isso nas minhas provas dissertativas, sempre escrevia algo que me surpreendia em seguida, até que no final do curso tive que formular um artigo científico e, em um sorteio na sala de aula, aparentemente eu sorteado o pior dos temas: analisar um artigo de divulgação científica a fim de identificar os conectivos subordinativos.
Inicie minhas pesquisas e leituras, e, em um mês, conclui meu artigo cujo título era O uso dos conectivos subordinativos numa perspectiva sintático-semântica. Nesse meio tempo escrevi uma fábula intitulada O cachorro e o gato, após assistir a um vídeo de motivação.
Durante a especialização, elaborei um artigo científico inusitado. De tanto não suportar mais escutar as paródias veiculadas na eleição da minha cidade, acabei escolhendo-as como tema para escrever meu trabalho acadêmico, em 2008, com o título de Discurso político: as paródias veiculadas no período eleitoral. Após este trabalho, escrevi apenas projetos, alguns pus em prática e outros não.
Infelizmente, nós professores, não dispomos de tempo suficiente para debruçar-nos e escrever ou ler sempre que queremos, pois, segundo Francis Bacon: A leitura torna o homem completo; a conversação torna-o ágil, e o escrever dá-lhe precisão.